Hoje, são 178 CNPJs ativos classificados nessa categoria, o que coloca moda e vestuário entre os três maiores segmentos por concentração de CNPJs no levantamento realizado com dados da Receita Federal.
No entanto, quando olhamos para as aberturas ao longo do tempo, um movimento chama a atenção.
Até 1989, moda e vestuário representavam cerca de 13% das aberturas observadas entre os segmentos analisados. Nos anos 1990, aproximadamente 12%. Nos anos 2000, 9%. Nos anos 2010, 8%.
Entre 2020 e 2026, essa participação está próxima de 4,5%.
Isso não quer dizer que as pessoas estejam deixando de comprar roupas ou que não exista mais espaço para novas lojas em Posse.
Mas isso nos leva a uma pergunta importante.
Por que moda e vestuário passou a representar uma parcela tão menor das novas atividades registradas na cidade?
Uma possível explicação aparece quando olhamos para o período em que essa queda se tornou mais acentuada.
Nos anos 2010, moda e vestuário representava aproximadamente 8% das aberturas observadas. Entre 2020 e 2026, essa participação caiu para cerca de 4,5%.
Foi justamente nesse intervalo que as compras pela internet ganharam ainda mais espaço no varejo brasileiro.
O comércio eletrônico já vinha crescendo antes. Dados apresentados por Camila Steffens mostram, por exemplo, que as vendas online representavam apenas 0,1% das vendas de roupas no Brasil em 2010 e chegaram a 4% em 2017.
Em 2020, esse processo ganhou ainda mais força. Naquele ano, as vendas do e-commerce brasileiro cresceram 41% e milhões de novos consumidores passaram a comprar pela internet.
Comprar roupas também deixou de depender tanto das lojas disponíveis na própria cidade. Marketplaces, grandes varejistas, lojas de outras cidades e marcas que vendem pela internet colocaram uma quantidade enorme de opções na palma da mão do consumidor.
E esse comportamento já faz parte da rotina de uma parcela significativa dos brasileiros. Um levantamento da CNDL e do SPC Brasil apontou que 71% dos consumidores realizam compras online pelo menos uma vez por mês, com roupas, calçados e acessórios entre as principais categorias adquiridas pela internet.
Isso muda a concorrência. E a forma de pensar esse negócio.
Afinal, uma loja de roupas em Posse já não disputa a compra apenas com as outras lojas de Posse.
Nesse cenário, talvez mais importante do que perguntar "ainda existe espaço para mais uma loja?" seja perguntar:
"Por que o cliente escolheria comprar de mim quando ele tem tantas outras opções disponíveis?"
E essa resposta não é simples.
Preço e qualidade continuam importantes. O problema é tratá-los como se fossem diferenciais suficientes quando o consumidor consegue comparar produtos e preços sem sair de casa e quando é relativamente fácil surgir mais um vendedor disputando esse mesmo cliente, inclusive sem abrir uma loja física tradicional.
Quem quer entrar nesse mercado precisa encontrar um motivo forte para ser escolhido diante de tantas alternativas.
O que os dados nos permitem dizer
Esses são alguns dos fatores que podem ajudar a explicar por que moda e vestuário perdeu participação entre as novas atividades registradas em Posse ao longo dos anos.
E essa discussão não acontece apenas por aqui.
Pesquisas sobre digitalização do varejo vêm investigando como o crescimento do comércio eletrônico interfere na dinâmica das lojas físicas e na entrada e saída de empresas do mercado.
Os dados de Posse, sozinhos, não permitem concluir que o avanço das compras online provocou a queda na participação de moda e vestuário.
Mas, quando colocamos o que aconteceu na cidade ao lado do avanço do comércio eletrônico e dos estudos sobre seus efeitos no varejo físico, encontramos uma relação que merece ser considerada para entender como esse mercado vem mudando.
Fontes e referências
Receita Federal do Brasil. Dados públicos do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Recorte de estabelecimentos de Posse-GO. Base analisada em agosto de 2026. Elaboração e agrupamento dos dados pela Ponto Local.
CNDL; SPC Brasil; Offerwise. 71% dos consumidores compram online mensalmente, aponta pesquisa CNDL/SPC Brasil. Pesquisa realizada entre 13 e 25 de junho de 2025. O levantamento aponta, entre outros resultados, que roupas, calçados e acessórios lideram as categorias compradas pela internet.
KUPFER, Ann-Kristin; MARCHAND, André; HENNIG-THURAU, Thorsten. Explaining physical retail store closures in digital times. Journal of Retailing, v. 100, 2024, p. 512–531. Acessar estudo. O estudo analisa mais de 2.500 fechamentos de lojas físicas e discute a sobrevivência do varejo físico diante da competição digital.
STEFFENS, Camila. Essays in Labor and Health Economics. 2024. Pesquisa sobre os efeitos da expansão do e-commerce sobre varejistas locais e o mercado de trabalho no Brasil. O estudo explora, entre outros mecanismos, se a adaptação ao avanço do comércio eletrônico ocorre pela saída de empresas ou pela redução da entrada de novos negócios.